Cassio Carvalheiro

sábado, 25 de janeiro de 2014

CRÔNICA - FOTOS DE SÃO PAULO - 2001


CRÔNICAS  ANACRÔNICAS - Amo São Paulo - 510 anos !

FOTOS DE SÃO PAULO  (José Nagado) 

1959 ... vim para São Paulo com treze anos de idade!. Cheguei a andar de bonde "camarão";  joguei  em campos de futebol de "várzea"; trabalhei como office-boy  em escritórios no centro velho; estudei em Colégio do Estado (I.E. Antonio Firmino de Proença); trabalhei em grandes empresas (Banco Moreira Salles, SKF, VASP); vi São Paulo iniciar a construção do seu Metrô;  formei-me na Escola de Engenharia Mauá, em 1971; vi grandes mudanças no centro e na periferia... 
Fotografei  São Paulo para poder falar um pouco das mudanças que vi  e para um dia poder contar para meus filhos e netos. 


FOTOS DE SÃO PAULO

Era um domingo, dia em que, com as ruas mais tranqüilas, gosto de caminhar, às vezes de máquina a tiracolo, fotografando São Paulo.

Meu roteiro, dessa vez, incluía a Avenida São João , a Praça Marechal Deodoro, Elevado Costa e Silva, Avenida Ipiranga, Anhangabaú , Teatro Municipal e finalmente a Praça da Republica.   

Enquanto caminhava, fotografando (clic) aqui e ali, lembrava da São Paulo dos anos 60. Com exceção do horroso (clic) Elevado Presidente Arthur da Costa e Silva, construído no início da década de 70, quase quarenta anos atrás estaria vendo as mesmas construções, quando eu e meus amigos caminhávamos pela (clic) avenida São João , indo ao Estádio do Pacaembu, para ver o futebol  nas tardes de domingo.

O elevado Costa e Silva, interditado para veículos aos domingos, atrai gente que vai andar a pé ou de bicicleta. Asfalto negro das pistas, calçadas cinzentas , nenhum jardim ou árvore sobre o elevado. Verde, só olhando para as ruas, avenidas e praças marginais (clic). É muita feiúra, com seu traçado sinuoso, interligando as zonas Leste e Oeste de São Paulo. É o chamado “Minhocão”, que seus tristes moradores vizinhos um dia tiveram que engolir, das janelas de seus apartamentos na Avenida São João.

Foi um alívio sair do “Minhocão”e ir para a “Cinelândia”, como era conhecida aquela região próxima das avenidas São João e Ipiranga, e da Praça da República, onde ficavam bons e grandes cinemas de São Paulo. Rever velhos cinemas como o Olido , Ipiranga (hoje cada um com duas salas de cinema), Marabá e Paissandu, é claro, me lembraram programas com alguma namoradinha ou com aquele bandão de garotos farristas que algumas vezes acabava expulso do cinema.

Caminhando pela São João, no sentido do Anhangabaú, logo chego (clic) à praça Júlio de Mesquita, hoje um local até bem conservado, a marcar com dignidade a confluência da Alameda Barão de Limeira com a Avenida São João. Belos e antigos prédios (clic) ladeiam a praça com seu chafariz ornado de lagostas. Naqueles velhos tempos, ali perto ficava a zona do Lixo, com seus cinemas de quinta categoria que exibiam filmes pornôs e suas casas de prostituição. Mas o meu roteiro não era por ai.

Onde antigamente era o cine Metro, atualmente é uma dessas igrejas que
Exploram o proselitismo religioso simplório por todos os cantos da cidade. Metro, Majestic, Windsor e outros cinemas deixaram de existir com o advento dos pequenos cinemas localizados nos grandes Shoppings.

O cruzamento da Avenida São João com a Avenida Ipiranga continua a mesma “poesia concreta”de “Sampa”de Caetano Veloso, e da esquina ainda se pode ver (clic) a fachada do antigo salão de danças na Avenida Ipiranga, onde o boêmio dos meus vinte anos uma noite ousou botar o pé, mesmo sem saber onde botar o pé num samba bem sacudido.Nenhum dos meus amigos podia me gozar. Ninguém sabia nada disso.

Nunca deixo de fotografar as Igrejas que encontro pelo caminho. No largo do Paissandu a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos (clic) continua da cor amarela, encardido. Uma banca de revista bem em frente à igreja atrapalhou a execução da foto. Cartazes de propaganda de políticos também. É preciso muita atenção para não poluirmos nossas fotos com essa propaganda. Toda a cidade está cheia de propaganda eleitoral para a eleição de prefeito e vereadores, em Novembro.

O calçadão da Avenida São João começa logo após o cruzamento com a Rua Conselheiro Crispiniano. Os prédios desse pedaço (clic), não sei porque, me lembraram a São Paulo da garoa, prosaica marca da cidade, quase inexistente quando cheguei por aqui, em 1959. O velho prédio onde ficava o Conservatório Musical de São Paulo (clic) está todo deteriorado, com tapumes. Parece que logo vai ser demolido.

O prédio (clic) dos Correios, na esquina com o Parque do Anhangabaú , destaca-se bastante na paisagem local. O calçadão termina num mirante donde se pode ver todo o Anhangabaú e os edifícios (clic) do Banespa, do Martinelli e do Banco do Brasil, que estamos acostumados a ver em muitos cartões postais de São Paulo.

O Cine Cairo (clic), resiste bravamente ainda, no Anhangabaú, hoje um enorme calçadão, o Parque Anhangabaú, sob o qual cruzam as avenidas Prestes Maia e a Avenida Vinte e tres de Maio.

O Parque do Anhangabaú e a Praça do Teatro Municipal são uma festa para a nossa Câmera (clic, clic, clic, clic....)

A caminho do local onde  estacionei meu carro, passo pela Praça da República, repleta de pintores. Lá, quadros com cenas vigorosas de cavalos em movimento e caravanas árabes montando camelos pelo deserto modorrento, acabaram fixados (clic) em foto, com o artista e o barrete que o caracteriza em recortes de jornais, expostos junto aos quadros. Sua maneira de alardear a fama que já conquistou.

No fim da praça , quadros com vistas de São Paulo (clic) motivam uma prosa com o seu pintor, boêmio, gaúcho de nascença, paulista de coração, que aprendeu cedo a realidade das ruas da cidade, nas pensões baratas da boa do lixo, nas noitadas dos bares e boates da região, num tempo que não era difícil amar São Paulo.

J.N – 16/02/01.
                                                                                                                                                             


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

P.001.2014 – PAULO LEMINSKI



P.001.2014 – PAULO LEMINSKI


Paulo Leminski, Curitiba  (1944 – 1989), poeta concretista, romancista, tradutor, compositor, biógrafo e ensaísta. 

Uma pequena introdução ao haicaísta mais importante do movimento concretista.

Em Haicais e o Burlesco – link :
citamos: “ Paulo Leminski, na esteira do interesse e divulgação do Zen budismo (1960) promoveu a leitura mais recente do haikai no Brasil.” (ref.  “Haikai – Antologia e História” - Paulo Franchetti, Elza Taeko Dói e Luiz Dantas - Editora da Unicamp – (1996) – Campinas - SP


O concretismo, onde transitou Leminski, teria desencadeado as  influências da tradição do haikai japonês sobre o poeta. Os concretistas vivenciam a aplicação da teoria do ideograma chinês à poesia na obra de E. Pound. A linguagem concentrada do haikai, por sua vez,  redunda na comunicação rápida e urgente perseguida pelo espírito objetivo e contemporâneo dos concretos.(Mallarmé, Pound, Oswald, etc).Leminski, imerso nas trilhas de Pound estudará, posteriormente, a tradição do poema japonês.

Leminski chega ao concretismo pela afinidade com os teóricos do movimento no tocante à acepção criativa das teorias e ideias advindas dos clássicos do concretismo. (Ref. * Ensaio: PAULO LEMINSKI: UM CONCRETISTA DISTRAÍDO - Lidiane Alves do NASCIMENTO (CAPES)1; Solange Fiuza Cardoso YOKOZAWA2 - Universidade Federal de Goiás )

HAICAIS DE UM CONCRETISTA.

duas folhas na sandália
o outono
também quer andar

a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome


madrugada bar aberto
deve haver algum engano
por perto


(Paulo Leminski (1944-1989)




Texto semiótico de um Concretista

O ASSASSINO ERA O ESCRIBA  (DE CONTOS SEMIÓTICOS)

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida, regular como  um paradigma da
1a. conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava
Um jeito assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era  possessivo  como  um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conetivos e agentes da passiva,
O tempo todo.
Um dia,  matei-o  com um objeto direto na cabeça.
(Paulo Leminski)
(ref. Toda Poesia – Paulo Leminski-COMPANHIA DAS LETRAS  – São Palo  (2013)

Comentários (de Ref.*)

“afinidade com Mallarmé, Pound, Oswald e outros poetas que alicerçam a base de construção do movimento da poesia concreta.”

“o poeta mistura o rigor (objetividade) do Concretismo com o jogo do humor, ponto de fuga dos modelos sistêmicos, dessacralizador dos valores vigentes na sociedade moderna, que dele se acerca”.

”É necessário sempre atentar para as confluências que perfilam a ambigüidade da poesia leminskiana, pois, de um lado está o Leminski comprometido com os rigores da linguagem, de outro, o brincador, de anarquias e deboches com o fazer poético.”

“Cumpre, neste momento, para entendermos a ligação de Leminski com a vanguarda concreta, alinhavar um percurso de retorno que nos leve a conhecer, mesmo que de passagem, a história desse movimento vanguardista, suas pretensões, as mais pretensiosas e mais legítimas, suas realizações contributivas para a poesia brasileira, de forma a verificarmos como Paulo Leminski, o poeta à margem de todas às escolas, dialogaria, por ora, com as idéias desse grupo que irromperá em São Paulo.”

“O concretismo influencia Leminski também no que tange ao feito de instigar sua disposição poética para o humor, pois alguns dos preceitos do movimento, assentes em sua poesia, subsidiam o exercício de (des)montagem de palavras sobre o branco do papel, brincadeira capaz de pôr em jogo relações sintáticas e semânticas, realçar o campo visual, descortinando, assim, a partir do diálogo construção / desconstrução, vários sentidos passíveis de se transmitir o riso. “(Ref. * Ensaio: PAULO LEMINSKI: UM CONCRETISTA DISTRAÍDO - Lidiane Alves do NASCIMENTO (CAPES)1; Solange Fiuza Cardoso YOKOZAWA2 - Universidade Federal de Goiás )

José Nagado (17.01.2014)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

CRONICA - O CRONISTA NOSSO DE CADA DIA (José Nagado 19.04.2001)



O CRONISTA NOSSO DE CADA DIA 

Gosto de reler esta crônica, saudosa lembrança de Rachel de Queiroz e Daniel “Sinopse” Piza que já morreram e de outros jornalistas como o Matthew Shirts, José Castelo, Mário Prata,  Mauro Dias, Ignácio de Loyola, João Ubaldo “PONTO DE VISTA” Ribeiro e  VERÍSSIMO Família Brasil, que igualmente assinavam suas colunas no Caderno Dois do Estadão, no ano de 2001.
Ignácio de Loyola, João Ubaldo  Ribeiro e  VERÍSSIMO continuam no “Caderno Dois”, escrevendo suas brilhantes e interessantes crônicas.  
Brevemente apresentarei neste Blog duas crônicas (não anacrônicas) distinguindo dois grandes colunistas do atual time do Caderno Dois: Lúcia Guimarães e Ignácio de Loyola.




O CRONISTA NOSSO DE CADA DIA – (José Nagado 19.04.2001)

   Hoje mudei minha rotina. Acordei cedo para levar minha filha ao fisioterapeuta, tomei uma média e pão com manteiga numa padaria e ainda não li meu jornal. São nove horas da manhã, já revisei minha penúltima crônica e estou iniciando esta. A crônica mais recente ainda está em período de incubação, para não dizer de “acabação”, quando acabo mudando metade do que escrevi.

   Se você está achando que escrevo crônicas para jornais, está enganado. Gosto desse gênero de literatura e escrevo crônicas pelo prazer de escrever. Lia crônicas de Rachel de Queiroz na antiga revista “O CRUZEIRO” antes de saber que eram crônicas, mas que com certeza, me levaram ao prazer de sua leitura em jornais, revistas e livros. 


   Admiro a capacidade daqueles que conseguem manter leitores cativos com sua crônica diária ou mesmo semanal. Escrever uma crônica por semana parece ser  coisa simples, mas não é. Consegui isso durante dez semanas e depois, mesmo tendo disponibilidade de tempo, fiquei duas semanas bloqueado. Nesse tempo tentei desenvolver dois temas, para os quais já havia feito anotações suficientes para escrever várias crônicas. Não consegui. Foram duas semanas terríveis, sem inspiração para escrever crônicas. Comigo, isso ocorre algumas vezes, por dois ou três dias. Duas semanas foi demais.

   Sou o leitor solitário das crônicas que faço. E também crítico impiedoso de mim mesmo. Um haicai meu “elogia” minhas próprias crônicas: “Crônica insôssa/Pedante, impertinente/Inútil e tôsca”. Além disso, minhas crônicas são pesadas, demoradas. Falta à minha crônica aquela linguagem leve e rápida do prosador acostumado a narrar, descrever, refletir, argumentar, filosofar e outras exigências que esse gênero consagrou.

   De segunda a sábado, no Caderno Dois, o time de cronistas do “Estadão”, alimenta impiedosamente essa minha impressão. Vejo o cronista nosso de cada dia com o seu “pãozinho” quentinho, pronto e acabado, para que nos deleitemos ao café da manhã. Cada um no seu estilo, serve humor, sutileza e inteligência extraídos de aspectos cronicáveis somente capturados por sua argúcia, em temas aparentemente corriqueiros ou noticiários locais ou internacionais.

   Quem, senão Matthew Shirts, poderia ter visto “O futuro dos mulherengos nos EUA” e contado para nós numa segunda feira? Tudo embalado com a cultura folhetinesca americana, pronto para o leitor jactar-se do seu   conhecimento da vida na terra do Tio Sam em qualquer   “papo cabeça”.

   Na terça-feira, um José Castelo apresenta, por exemplo, seu “Para que servem as crianças?“. Você reflete: Para que serviria uma crônica desse tipo? Chamar sua atenção para problemas que o noticiário dos jornais trata friamente ou até reforçar seus argumentos sobre uma questão social naquelas reuniões (chatas) de pais e mestres da escola do seu filho, ou quem sabe, torná-lo  mais sensível e receptivo nas relações com outros seres humanos, instigar sua inteligência emocional, como diria o consultor em QE. 

   Na quarta-feira, você acorda e lembra que tem a feijoada no almoço com os amigos. Péssimo hábito de muitos brasileiros, a feijoada da quarta-feira. Seu cronista do dia, Mário Prata, brinda você com um “Quebra de Sigilo Cerebral” ou então, com um “Os ladrões”.  Humor fino: Sigilo bancário e sigilo cerebral, quem deixaria de sacar as sutilezas e afinidades dos temas? Profissionais da gatunagem, gente fina os ladrões de antigamente. Seus músculos faciais estarão preparados para rir e seu fígado para trabalhar relaxado, durante e após aquele banquete de colesterol, nas conversas bem humoradas que rolarão com os seus amigos.

   Chega a quinta-feira, e você está com problemas que se acumularam durante a semana. Você lê a crônica do Mauro Dias e de repente, cai a “ficha“. Disfarçado numa ficção do cronista, você apanha um gancho ou uma idéia luminosa para resolver um dos seus problemas.  Em “Notas sobre a arte de transplantar problemas” Mauro Dias, nos faz refletir sobre os viadutos que construímos (foi o Pita, ex-prefeito de São Paulo) pensando que estamos resolvendo um gargalo do trânsito, quando apenas estamos (foi o Pita, repito) transplantando o problema para algum ponto logo adiante. Que isto não se repita.

   Finalmente chega Ignácio de Loyola Brandão, digo, chega a sexta-feira. Você terá um longo dia de trabalho, vários problemas a resolver ou metas ainda a cumprir. Mas você tem tudo organizado na sua cabeça. Como uma crônica do Ignácio de Loyola. Tem o conhecimento necessário do assunto, das circunstâncias que deverão ocorrer, das sutilezas comportamentais, e finalmente, do resultado esperado ou direção que deverá dar ao trabalho (ou à crônica, no caso do Loyola). “Só quero um pouco de silêncio”, “Ladrões de hoje, ladrões de Séculos”, “Ele (o sapo) veio trazer a felicidade ?”, são alguns dos exemplos de crônicas do Ignácio. Do mestre Ignácio. (lembrando sua Oficina Literária, onde orienta novos escritores). Depois de tanto trabalho, no barulhento “happy hour”, você nem vai se lembrar dos impostos que levam seu dinheiro para enriquecer ladrões dos cofres públicos (os Lalaus da vida) e vai ficar feliz quando o garção (o sapo) vier rapidamente trazendo seu chope geladinho.

   O gostoso da sexta-feira é a expectativa de um relaxante fim de semana. Em casa ou na praia, o fim de semana começa no sábado com a Velha Amiga Raquel. (escreve-se Rachel, como antigamente). Suas crônicas, como a “Velha Amiga”, “O milênio, o rural e o urbano”, “Tragédia no mar” nos trazem a calma sabedoria de quem viveu quase o século passado inteiro e adentra este novo século (e milênio) como uma sólida referência de duas ou três gerações de leitores de crônicas. É preciso dizer mais?

   Só mais um pouco. Peço desculpas ao iletrado (“Escrevendo Muderno”)João Ubaldo PONTO DE VISTA Ribeiro por não falar dele, que nos obriga a lê-lo aos domingos. Igualmente para o Daniel SINOPSE Piza, que me lembra Fernão Lopes, guarda-mor da Torre do Tombo, também nomeado cronista-mor do reino de D.Duarte e para o VERÍSSIMO Família Brasil, brasileiro de verdade, que acredita no seu povo (Devem existir poemas de Eurico Miranda). Trabalhador, todos os dias tem crônica sua no “Estadão”. 

   Sexta-feira, faz calor, parece verão. “Nas tardes de verão/ O chope bem gelado/ Tomo no balcão”.

Fui.

José Nagado – 19/04/01


terça-feira, 31 de dezembro de 2013

EM FOCO : QUADROS&HAICAIS – COLETÂNEA (31.12.2013)

EM FOCO : QUADROS&HAICAIS – COLETÂNEA    

Introdução

Em “Haicais e o Burlesco”:http://licburlesco.blogspot.com/2012/07/haicais-e-o-burlesco-introducao.html ) uma rápida exposição sobre a origem e características básicas do haicai evidenciou um público interessado nesse poema de origem japonesa. Isto serviu de  estímulo para publicar a coletânea “Quadros & Haicais”,  citada naquela postagem. Os haicais postados em “Haicais e o Burlesco” eram independentes de qualquer manifestação em relação  ao Haicai tradicional  e além disso,  o texto  sugeria plena aprovação ao estilo do haicai do Millor Fernandes. 
A apresentação (link:http://licburlesco.blogspot.com/2013/10/lancamento-de-quadrose-haicais-quadros.html), extraída da coletânea “Quadros e Haicais”, expõe contextos e reflexões do autor para a realização dos Quadros e também uma forma não convencional (ou tradicional) de composição de Haicais que acompanham os quadros.


Comentários

Embora grupos de haicaistas que se esforçam por manter   o haicai tradicional criticassem essa posição, os comentários recebidos assumem uma agradável cumplicidade em relação à Coletânea e assim entendemos ser oportuno trazer alguns desses depoimentos sobre a forma não tradicional dos haicais mostrados nesse trabalho.


Comentários recebidos de:

aaaa@xxxx.yyyy.br

>” ...Achei interessante também a referência à fôrma poética dos Haikais (haicais). Tive, inclusive, haikais meus selecionados num concurso promovido por uma editora do Rio de Janeiro, a Guemanisse, e foram publicados na antologia PALAVRAS DINÂMICAS, organizada por Clarisse Maria - Guedes.
Nas instruções para elaboração dos haikais, estavam explícitas as regras para construção do haikai: poemas de três versos, primeiro e terceiro versos como redondilhas menores; segundo verso com redondilha maior; o primeiro verso rimando com o último, e última sílaba do primeiro verso rimando com segunda sílaba do segundo;e segunda sílaba do segundo verso rimando com última sílaba do segundo verso.
Bom, claro, que segui as instruções, mas observei que outros haikais que li não obedecem a essas regras. Inclusive os do saudoso Millor Fernandes. Mas sabemos que, depois da chegada do Modernismo, a poesia deixou de ter regras,valendo apenas o aspecto sonoro, o sentimento produzido...Gostaria de ver sua opinião sobre o assunto. “
Abraço. Chamadoira



Comentários recebidos de: 
From:jcneves45@yahoo.com.br

...Quanto a possíveis críticas dos apreciadores do haicai tradicional, entendo que não deves preocupar-te muito com eles. O importante na literatura, na música ou em qualquer tipo de arte, não é manter ou mostrá-la em seu estado mais puro, mas sim que elas cheguem ao maior número possível de pessoas. Os demasiado puristas terminam por privatizar e encarcerar para si a multi-expressão da sensibilidade humana. A exteriorização da criatividade não precisa seguir um rígido e único caminho. A poesia não é engenharia, nem física, nem química, nem qualquer expressão matemática que necessite de absoluta precisão para ser correta. A literatura - e nela a poesia - assim como a música e as artes plásticas têm apenas que tocar a alma de quem as cria e as contempla, porque elas representam o BELO, e este não pode ser apenas uma prorrogativa dos puristas, dos eruditos, mas sim da humanidade. A rigidez e os segredos da criação de algum tipo arte, condenam  esta ao ostracismo, e não sobrevive ao seu autor. ..Obrigado ... e abraços - JC - 22/07/12

Extendendo os comentários sobre os haicais, vistos como gênero literário, um deles alerta a necessidade de cuidados quanto a escansão e contagem de sílabas na composição dos poemetos.

O amigo Luiz Roberto comenta, no blog :

Luiz Roberto (14.11.2013)

“Fui surpreendido pela qualidade simples das composições. Não tenho conhecimento suficiente para julgar a qualidade artística, mas causou-me muito boa impressão o conjunto de imagens e hai-cais. em “QUADROS E HAICAIS” - uma Coletânea”

Nagado (em 04.12.2013) reflete sobre a dialética empregada pelo amigo Luiz Roberto:

Uma tese (qualidade simples das composições), uma antítese sofisticada (não tenho conhecimento para julgar a qualidade artística) e uma síntese genial (causou-me muito boa impressão o conjunto de imagens e hai-cais). Obrigado, Luiz Roberto. (47 anos de amizade, acreditem!) em “QUADROS E HAICAIS” - uma Coletânea


Conforme nos propomos : Eliminado o artificialismo, ostentações técnicas, julgamentos preconceituosos, e sentimentalismo vazio preconizados pelo Haicai, fica o conceito básico de que o Haicai   “É antes a arte de, com o mínimo, dizer o suficiente”. 
Os Quadros e Haicais dessa tríade fixam a transitoriedade das coisas (o ritual da cidade, as sombras das casas, a Igreja desaparecida, as águas do rio, a sensação do observador  , etc).e essa perspectiva pode ser estendida a toda a Coletânea.


Comentários finais do autor


A coletânea  “QUADROS & HAICAIS”  composta entre os anos 2001 e 2003, ficou sob suspeita de Imaturidade renitente no decorrer dos  “cinquenta anos”   (até  2005), adquirindo espaço na verve da terceira idade precoce, a partir dos “sessenta anos” do autor.
O “amador-ecimento” tardiamente revisto (2013)  nos Quadros & Haicais cometidos nos permitiu dizer:
-   A coletânea apresenta fidelidade temática e estética com  o objetivo pretendido.
- Contextualizações temporais e concisas envolvem a temática e a estética de cada Quadro.
-  O haicai não se apega ao texto   e procura a concisão no próprio quadro : “é antes a arte de, com o mínimo, dizer o suficiente”. 
(josé nagado – 31.12.2013)
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NAGADO DESEJA

UM 2014 MARAVILHOSO  

E UM GRANDE ABRAÇO A TODOS




segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

mini CRÕNICA - H.LAJE DE PEDRA

MINI CRÔNICAS (também ANACRÕNICAS)

V. já teve a impressão de que a Velha Senhora bateu à sua porta? 


H. LAJE DE PEDRA
21/07/00

Dia agitado e gostoso.
Noite fria,
Quarto agradável,
Ventania repentina lá fora.
O sono chega
Com a madrugada silenciosa do hotel.
Logo, a Velha Senhora bate à porta no meu pesadelo.
Tomo-lhe a foice da mão.
Bato-lhe a porta na cara.
Pela janela, jogo a foice no jardim.
Ouço vozes apavoradas e passos rápidos no corredor.
Acordo assustado.
Pelo corredor, levam uma velhinha enfartada.
Pela janela, entram os alvores da manhã.
No jardim, uma foice esquecida...

OOPS! Postado por engano!! kkkkk

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

POST 14.2013 – ESQUETES : SIMPLÓRIO – do Grotesco ao Lúdico - 19.12.2013

POST 14.2013 – ESQUETES : SIMPLÓRIO – do Grotesco ao Lúdico


Introdução
  
   Em “Burlesco” (http://licburlesco.blogspot.com.br) definimos uma estrutura (caráter x fundamentos x tendências) que nos possibilita analisar estilos de comportamentos de nossos semelhantes (uns mais e outros menos), segundo quatro Categorias de estilos do Burlesco: Pobre de Espírito, Gozador, Espirituoso e Genial. O texto que segue refere-se ao estilo Simplório da categoria Pobre de Espírito.
Baseados nessa estrutura, iniciamos a postagem de uma série de ESQUETES  para  relatar passagens típicas dos (17) estilos burlescos com o POST 11.2013 - CRICA – Fair Play no Tênis(http://licburlesco.blogspot.com.br/search?q=fair+play+no+tenis). A série dos Esquetes não obedecerá a sequência apresentada no “BURLESCO”.

   O Estilo Cândido (http://licburlesco.blogspot.com/2013/11/post-132013-esquetes-candido)  inaugurou a série de esquetes da categoria Pobre de Espírito que agora  tem sequência  com o esquete do estilo Simplório. 

Pobre de Espírito   

   Um resumo da Categoria “Pobre de Espírito” foi apresentado em http://licburlesco.blogspot.com.br/search?q=pobre+de+esp%C3%ADrito-20.05.2012.
   Os estilos desta categoria (Simplório, Cândido, Inocente útil e Ignorantão) foram agrupados   devido a uma disposição permanente do caráter identificado comumente com a imagem   compassiva que nos transmitem.  ("E quando aprendemos melhor a divertir-nos, esquecemo-nos melhor de fazer mal aos outros e de inventar dores". - Nietszche, em "Assim falou Zaratustra/dos Compassivos").
  

Simplório
   A respeito de Simplório, o “Aurélio” registra: “Diz-se do indivíduo ingênuo, tolo, papalvo, simples”. Papalvo  entre os caçadores é o nome da codorniz, ave que mal sabe voar, sendo por isso caçada  com facilidade.
    No Burlesco o estilo Simplório,  sob o  aspecto comportamental, é atribuido aos meandros do inconsciente do indivíduo,   relacionando-se o estilo a uma interpretação freudiana do chiste, destacando a utilização do Princípio do Prazer, predominante, em uma realidade (Princípio da Realidade) grotesca em relação aos demais fundamentos (lógico e ideológico). Portanto, traços de caráter associados a (“identidade” e “ideologia”) integram o perfil do estilo Simplório neste esquete.
 
Os termos Simplório e Papalvo poderão ser utilizados no  texto para se referir ao estilo comportamental (do Simplório) ou confundido com o próprio indivíduo (Simplório).

Traços de caráter associados aos  fundamentos lógico e ideológico  identificados  em (“identidade” e “ideologia”) complementam  o perfil do estilo Simplório, omitidos neste esquete.

 Erotismo     

    Associamos o chiste ao fundamento comportamental do Simplório, tendo a Psicanálise como referência. Tratamos desse tema no blog sob o título - 2.4.1 REVENDO COMPORTAMENTOS - Sigmundo Freud–(cont). No link http://licburlesco.blogspot.com/2012/02/241-revendo-comportamentos-sigmundo.html, registramos:

   Em “Os dez amigos de Freud”, (Rouanet, Sérgio Paulo –– São Paulo: Companhia das Letras, 2003), ref. (17), o autor comenta a obra de Mark Twain enquanto fonte de exemplos e justificativas para as teorias freudianas, destacando-se mecanismos de condensação e deslocamento, pelos quais o inconsciente se apresenta, como nos sonhos, atos falhos e sintomas.
   “Segundo Freud os chistes, têm como objetivo  a satisfação de desejos inconscientes e constituem uma forma de nos libertarmos de nossas inibições para expressar (tendências) instintos agressivos, sexuais, cinismo, etc., que, de outra forma, não seriam levados ao nível consciente”. 
   O chiste é a formação que mais se insere no social, necessitando do “outro” para referendá-lo a certa lógica do inconsciente, fator presente não apenas nos sonhos e sintomas, mas também na vida cotidiana, nos sonhos, atos falhos, nas práticas religiosas e na arte. Esse “outro” subsidia a existência do próprio relator.

   Considerando as premissas acima, efetuamos a análise da expressão do chiste constituído pelo estilo Simplório, envolvendo seu fundamento Comportamental (o erotismo), de base psíquica  e sua tendência agressiva.
    A formação de um chiste e sua constituição bem como o pensamento expresso por ele gera satisfação e nos faz rir e ainda com mais intensidade neste caso, em que o chiste cumpre um propósito ou uma "tendência" embutida em seu pensamento.

A realidade erótica do Simplório tem para si apenas o aspecto lúdico  do prazer de olhar, simular situações ou taras  de fato grotescas, de brincar  com coisas, palavras ou imagens eróticas. E para isso, o  Simplório é muito prolífico e confidencial ao relatar casos para seus amigos. Isto lhe satisfaz desejos e ansiedades mas enseja as mulheres a chamá-lo maldosamente de  “inofensivo”.
 Esse aspecto  tem o feitio exato para o gozo da galera (seus amigos gozadores) que não deixa o Papalvo em paz. Sempre que podem, eles ficam à espreita observando-o em suas investidas, para depois contar para os demais. Além disso, aguardam o relato do próprio Simplório para as maiores gargalhadas. Puro Sadismo. 
Vamos verificar que o humor atua como uma válvula de escape para alguma verdade do Simplório, que até então, ele não fora capaz de externar e que o Simplório  se livra dos recalques, sem pagar o preço neurótico da angústia ou do padecimento dos sintomas,   preocupação de psicanalistas. Mas o Simplório não consegue ficar desembaraçado do juízo crítico do seu interlocutor ou interlocutores.

O Estilo Simplório utiliza-se de  alusões ao erotismo e ao lúdico nos casos que relata, deslocando sua agressividade ou insatisfações (contra a mulher, autoridades, etc), condensando na fantasia do seu estilo confidencial,  a realidade de suas tendências.

Desempenho
Um chiste do estilo Simplório provoca um simulacro de risos quando relatado   e provoca gargalhadas quando captamos a amplitude de seu envolvimento.  

Estado
Constatar que o Simplório encontra o equilíbrio psíquico quando conta seus “causos” é verificar a validade do princípio da homeóstase. Realmente ele precisa relaxar sua tensão como todo mundo, só que o Simplório desconhece suas próprias tendências  e está equivocado quanto às alusões e circunstâncias psíquicas  envolvidas no “causo”.

Ei-lo!!

Confira o estilo Simplório

Sexo
O negócio anda tão violento ultimamente que ninguém mais acredita em amor puro, angelical.
Outro dia perguntaram a uma menina muito tímida:
- Por que é que as mocinhas baixam o olhos quando recebem declaração de amor dos rapazes?
E ela responde:
- Prá conferir se é verdade.

(ref. “Mil piadas de salão” – Alan Viggiano)

Sorte
Dizia um amigo:
- Rapaz, eu tenho uma sorte bárbara.
- Ganhaste na loteria?
- Nada disso, cara!. Ontem de noite eu vinha saindo de um desses hotéis de alta rotatividade ali na Boca do Lixo, justamente na hora que a minha mulher ia entrando. Puta sorte, meu!  ...Ela não me viu!!

(ref. “Mil piadas de salão” – Alan Viggiano)

(Equívoco)
Enviado pela C.R. Essas e Outras (obrigado Moacyr)
VOCÊ É O PAI DE UMA DAS MINHAS CRIANÇAS...

Um sujeito está na fila da caixa no supermercado.
De repente, observa que uma loiraça lhe acena e lança um sorriso daqueles de cair o queixo.
Ele deixa por momentos o carrinho das compras na fila, dirige-se à loiraça e lhe diz suavemente:
- Desculpe, será que nos conhecemos?
Ela responde, sempre com aquele sorriso:
- Não se lembra de mim? disse, sorrindo.Você é o pai de uma das minhas crianças...
O tipo põe-se imediatamente a vasculhar a memória e pensa na única vez em que foi infiel à esposa, perguntando de imediato à loiraça:
- Não me diga que você é aquela stripper do puteiro da Zuleika Drinks, que depois de um show de sexo total com quatro caras, eu acabei te comendo sobre uma mesa de bilhar, diante de todos os presentes, totalmente bêbado, enquanto uma das suas amigas me flagelava o tempo todo com uns nabos molhados e me enfiou um pepino no rabo?!
Resposta imediata da loiraça:
- Bem... acho que o senhor está equivocado... Sou a professora do seu filho...




(José Nagado – 19.12.2013) 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

POST 13.2013 – ESQUETES : CÂNDIDO – Afilhado de Político



POST 13.2013 – ESQUETES : CÂNDIDO – Afilhado de Político

Introdução
  
   Em “Burlesco” definimos uma estrutura (caráterxfundamentosxtendências) para analisar estilos de comportamentos de nossos semelhantes (uns mais e outros menos), identificados em quatro grandes Categorias de estilos do Burlesco: Pobre de Espírito, Gozador, Espirituoso e Genial. O texto que segue refere-se à categoria Pobre de Espírito. (Ref.“Burlesco”, no blog  http://licburlesco.blogspot.com.br)

Nota: com  http://licburlesco.blogspot.com.br/search?q=fair+play+no+tenis – (POST 11.2013 - CRICA – Fair Play no Tênis), iniciamos a postagem de ESQUETES (sugerem outra palavra?) com passagens típicas dos (17) estilos burlescos. Os Esquetes não obedecerão a sequência apresentada no “BURLESCO”.

   A série de Esquetes tem continuidade com uma passagem típica do estilo Cândido, da categoria Pobre de Espírito do Burlesco.   

Pobre de Espírito   

   Um resumo da Categoria “Pobre de Espírito” foi apresentado em http://licburlesco.blogspot.com.br/search?q=pobre+de+esp%C3%ADrito-20.05.2012.
   Os estilos desta categoria apresentados no Burlesco (Simplório, Cândido, Inocente útil e Ignorantão) foram eleitos devido a uma disposição permanente do caráter identificado comumente com a imagem   compassiva que nos transmitem.  ("E quando aprendemos melhor a divertir-nos, esquecemo-nos melhor de fazer mal aos outros e de inventar dores". - Nietszche, em "Assim falou Zaratustra/dos Compassivos").

   “Com certa freqüência podemos chegar a nos sentir maldosos quando conseguimos obter o  riso de  um  indivíduo desta categoria, pois o seu riso chega  a soar como um grito de angústia, quase que uma súplica de luz para sua mente”.
“Sua lógica obtusa o protege....”
Nota: Extratos (entre aspas)  conectam este esquete ao texto do “Burlesco”

   Em relação à estrutura de análise (caráterxfundamentosxtendências) mencionada na introdução, esclarecemos que este esquete incide apenas sobre o fundamento (comportamento) lógico do Cândido, considerando-se integrados os demais fundamentos (ideológicos e comportamentais) e seus limites, que são explorados no texto do Burlesco.  

Cândido
                                                                                           
   Apresentaremos neste esquete uma faceta marcante do estilo Cândido (v. “BURLESCO”) e, para que não restem dúvidas, estilo e agente do estilo se fundem no nome: Cândido. (me perdoem aqueles punidos desde o berço com este nome).
    “Trata-se de Indivíduo cujo estilo faz rir tanto pelos seus defeitos como pelas suas qualidades .....” ...  “faz parte de seu estilo, a pouca capacidade de “se ligar” para captar o cômico, o divertido, o ridículo, a graça, enfim, o Burlesco. Sob este aspecto é popularmente conhecido como  Travado”.

 Afilhado de Político
  
   Chegou a nos comover bastante a maneira como o Cândido descreveu, em termos até elegantes, quando justificou sua conduta ao aceitar um “presente de casamento” enviado por um político safado que nem o conhecia pessoalmente e, o mais grave, todo  mundo sabia ser corrupto e réu acusado de desviar dinheiro de obras públicas, em ...(qualquer cidade brasileira)
   Nessa época o Cândido era jovem e dava um duro danado por um salário miserável no almoxarifado da empresa em que trabalhava. Muito zeloso, foi escolhido pela chefia do almoxarifado para cuidar dos uniformes esportivos e acabou se tornando o lider dos esportes na empresa.  Por tanta dedicação, foi agraciado pelo político acima citado, irmão do dono da empresa, tornando-se um “afilhado” de fulano, como ele costumava dizer a todo mundo. Esse comportamento, não seguia nenhum princípio que indicasse um futuro melhor para o Cândido, seja pelo lado prazeroso de regalias no trabalho, seja pelo lado do nível cultural e social em que vivia. e ao qual parecia condenado.
    Era dessa forma, formando eleitores afilhados  que o político angariava  votos.  Outras vezes distribuia jogos de camisa de futebol para os clubes da periferia. Esses políticos tornavam-se padrinhos de comunidades inteiras, a troco de badulaques presenteados em ocasiões especialmente informadas pelos seus cabos eleitorais, apadrinhados também, como não, pelo político safado.
   Certa feita, em uma grande festa (comício) na empresa, indicando com um largo e fraterno gesto  o tal político safado, o Cândido contou com orgulho que era “afilhado de casamento deste político” e acrescentou: “Ele rouba  mas faz.”.  Risada geral . Só o Cândido não entendeu.
Na maioria das vezes essa afirmação (“Ele rouba  mas faz.”)vem a hipostasiar-se em critério de realidade ou quando não, na própria realidade, aceita por essa gente compassiva que não vê limites para quem tem o poder. Complacência inconsciente ou irresponsável.
E isto é “razão suficiente” para a (eterna) duradoura admiração do Cândido pelo “padrinho”.

José Nagado (27.11.2013)