domingo, 13 de agosto de 2017

CRÔNICA 020 - A BALANÇA DA FARMACIA



CRÔNICA 020 - 

Encontrei uma cópia desta crônica perdida entre os meus guardados e resolvi juntá-la às outras crônicas escritas no início dos anos 2000 e já publicadas neste blog. 





 A BALANÇA DA FARMÁCIA (José Nagado)

https://licburlesco.blogspot.com/2017/08/cronica-020-balanca-da-farmacia.html

Uma placa pendurada na balança dizia que ela estava quebrada e o proprietário da farmácia pedia desculpas pelo inconveniente: “Agradecemos a preferência”, concluía a placa.
Antigamente todas as farmácias tinham sua balança na entrada. Era ponto de honra a farmácia ter sua balança, a ponto de justificar aquele aviso.
Lembrei-me desse fato, ocorrido há muitos anos na cidadezinha onde morei, que tinha apenas mais uma outra farmácia, com a sua balança, é claro!
Se alguém entrava numa farmácia para comprar remédios, um xarope, medir a pressão, tomar uma injeção, solicitar ao farmacêutico para aviar uma receita infalível do médico da família, fazer um curativo ou ser atendido em pequenas emergências, nunca deixava de subir na balança e dar uma olhada no peso. Às vezes entrava na farmácia só para ver o peso.
Nessa balança já quebrada, porém ainda sem o aviso colocado, subiu um rapaz alto, magricela, rosto virado para o alto e com a mão na garganta, reclamando muito de uma espinha de peixe que lhe incomodava. Foi engraçado vê-lo ainda com o rosto virado para o alto e forçando o mais que podia seus olhos para baixo, tentando olhar o ponteiro da balança. Dava leves pulos na balança para ver se o ponteiro aparecia ao nível dos seus olhos, quando o farmacêutico apareceu e lhe disse: “A espinha não vai descer desse jeito. Vamos dar uma olhada lá dentro.” Tinha gente que nunca deixava de querer ver o peso...
Na barbearia do Joca, no dia seguinte à colocação da citada placa, além das conversas sobre política, último jogo de futebol pelo campeonato da região ou a prisão do pau d’água que estava caído na calçada na noite de sexta-feira passada, o assunto mais comentado passou a ser a balança.
Otávio, o aprendiz de farmacêutico da farmácia da balança quebrada, era exímio em pequenos curativos, atender alguns tipos de emergências e também conhecido pela sua habilidade em aplicar injeções. Os fregueses diziam que não mudariam para a outra farmácia por causa do Otávio, apesar da balança quebrada.
Do final da história, fiquei sabendo na barbearia do Joca, que a outra farmácia passou a ter uma freguesia muito maior porque a balança da primeira farmácia nunca foi consertada.
Preocupado em controlar meu peso, recentemente fui procurar uma balança nas farmácias do meu bairro em São Paulo. Passei em quatro e nenhuma delas tinha tal equipamento. Uma delas tinha um equipamento mais sofisticado que podia fornecer, além do peso, a pressão e a altura, registrada em fita de papel, em troca de um real.
Tirei meu peso e fiquei preocupado com a pressão arterial, embora não estivesse crítica. Só queria uma simples balança de farmácia para ver meu peso.
Voltando para casa, lembrei-me da história contada no início. Também ia a  uma farmácia perto de casa que tinha balança na porta, cuja proprietária do negócio era uma senhora farmacêutica. Sempre que uma gripe me pegava de jeito eu ia até lá, para tomar injeção. Aquela injeção preparada na farmácia que só Deus sabe o que era. Funcionava. Aproveitava para pesar na balança. Outras vezes passava lá só para ver meu peso.
Um dia essa farmácia mudou de dono, mantendo a balança e a mim como seu freguês, menos para tomar injeção. Na última vez que estive lá, havia um pequeno balcão onde existia a balança.
Com o passar dos anos, quase todas as farmácias foram tirando suas balanças e colocando no seu espaço, prateleira com produtos em oferta, colocando aquele velha hábito de ver o peso na prateleira do esquecimento.
Já não me lembro quanto tempo faz que esqueci o hábito de me pesar, mas sempre que me deparo com uma balança de farmácia, não deixo de me pesar.
Coisa tão inusitada atualmente, uma balança de farmácia, que às vezes só a notamos porque alguém a descobriu antes e está vendo seu peso. Até  uma pequena fila de gente chega a se formar, indicando que se o hábito de ver o peso em balança de farmácia foi esquecido, por outro lado existe a favor do retorno desse hábito, um grande apelo da mídia para que as pessoas cuidem do seu perfil, controlem seu peso.
Parece que as farmácias, ou cadeias de farmácias (e drogarias) já estão percebendo isto, e começaram a disponibilizar equipamentos para ver o peso e medir a pressão arterial em seus estabelecimentos. Tenho visto num número maior de farmácias com balança.


Jn-04.01.01 

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