Cassio Carvalheiro

segunda-feira, 10 de março de 2014

CRÔNICA (ANACRÔNICA) - EM CARTAZ


CRÔNICA (ANACRÔNICA) - EM CARTAZ

Estava aguardando a premiação do OSCAR deste ano (2014)  para postar esta Crônica - Em Cartaz, com a qual faço uma homenagem a um amigo e ex-colega de Colégio, cuja obra cinematográfica tem sido admirada por muitos cinéfilos adeptos do filme sobre Sexo. Respeitando a discrição do amigo troquei o seu nome nesta crônica, mas espero que me dê a alegria de um e-mail ou contato através deste blog. 

EM CARTAZ  (José Nagado - 11.03.2001)

O menino passou em seu triciclo, descendo a avenida poeirenta para ir até a esquina onde ficavam os cartazes dos filmes que seriam exibidos naquela semana, em dois dos três cinemas da cidade.

Era assim, vendo os cartazes dos filmes, que as crianças, jovens e adultos da cidade de Registro, escolhiam o filme mais atraente, mesmo que acabassem indo aos dois cinemas, por falta de outra opção de lazer. O terceiro cinema, que eu me lembre, não colocava seus cartazes naquela esquina. Este cinema só apresentava filmes japoneses, onde a velha colônia japonesa ia chorar seus dramalhões, com todo respeito. Não havia escolha para eles. Algumas vezes eu ia lá, assistir a filmes de guerra ou de samurais.

Curtir cinema, nos anos cinqüenta da nossa infância, era vibrar com os seriados semanais das matinês, vendo e mergulhando junto com os nossos heróis, nas aventuras vividas por Niyoka, Flash Gordon e Tarzan. Era rir com as confusões aprontadas pelos cativantes Gordo e Magro, ou pelos violentos Três Patetas ou torcer pela vitória do Mocinho nos filmes de bangue-bangue.

Nas sessões noturnas, eram apresentadas comédias mais adultas, como os filmes do heróico Buster Keaton e da Tetéia dramática de Charles Chaplin, alguns com forte conteúdo social. Dos Irmãos Marx, creio que a censura americana só nos deixou ver sua cômica crueldade.

Para o pré-adolescente de então, os grandes filmes como Sansão e Dalila, E o Vento Levou, Spartakus, Os Últimos dias de Pompéia e outros épicos, produzidos nos estúdios de Hollywood, que a cidade pequena trazia para seus cinemas, eram tão importantes quanto os ingênuos filmes produzidos pelos esforçados estúdios da Atlântida e da Vera Cruz.

Oscarito, Grande Otelo e o nosso Mazzaropi, faziam parte do nosso imaginário do brasileiro, malandro ou ingênuo, e muito diferente do herói americano, que cansamos de ver nos filmes, vencendo guerras contra japoneses, alemães, e escaramuças contra os peles vermelhas. Além disso, os americanos cansaram de nos mostrar seu modo de viver, nos filmes do tipo água com açúcar, enquanto víamos somente a disparidade entre a nossa pobreza urbana nas favelas e a vida elegante dos ambientes mais sofisticados.

O Brasil da marcha lenta do início da década de cinqüenta, acelerou um pouco durante o governo do presidente (1956-60) JK, com seu slogan “Cinqüenta anos de progresso em cinco de governo”.  O adolescente do início dos anos sessenta aspirava ter seu fusquinha fabricado pela indústria automobilística nacional, que o Presidente Bossa Nova (JK) implantou no seu governo. Curtimos bastante o ambiente cult da Bossa Nova, internacionalizada num Carnegie Hall de muitos mitos. Repetimos nosso grito de alegria com a conquista do bicampeonato mundial de futebol de 1962. Celebrávamos nossos escritores, lendo adoidados, obras de Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Jorge Amado, e outros. Iniciamos o gosto pelo Teatro vendo Vida e Morte Severina, no recém inaugurado Teatro Oficina (em 1961). Vimos também, de graça, muitas peças apresentadas pelos alunos da Escola de Arte Dramática, no prédio da Pinacoteca do Estado, na Avenida Tiradentes. O Cinema brasileiro ganha nessa época dois importantes prêmios no Festival de Cannes. O Cangaceiro, dirigido por Lima Barreto e O Pagador de Promessas, de Dias Gomes.

Tinha nessa época, um colega de colégio, o Javier,  Taiwanes, simpático, reservado em suas conversas, era um entusiasta do novo cinema brasileiro. Dizia ele, então, que queria ser diretor de cinema, do cinema engajado, para poder mostrar os problemas sociais brasileiros.

Pouco tempo depois, o Brasil mergulhou numa fase de censura intelectual por quase vinte anos, durante a ditadura militar (1964-1988).

Encontrei o Javier na Avenida Paulista, num dia desse período, em 1975 ou 1976. Não estava nada animado e disse que vinha fazendo “um ou outro trabalho, sem muita importância”.

Lembrei-me dessa conversa com meu colega do colégio, após assistir “O Tigre e o Dragão”, filme de artes marciais, com várias indicações ao maior Prémio do Cinema, o Oscar 2001, do diretor taiwanes, Ang Lee, conhecido anteriormente por trabalhar em produções psicológicas como Tempestade de Gelo e Razão e sensibilidade, bem diferente de um filme de ação e pancadaria. Uma opção comercial.

Sei que meu colega Javier não produziu nenhum “O Quatrilho”, “Central do Brasil”, “Eu, tu, eles” ou “Dona flor e seus dois maridos”que não precisam ganhar O “Oscar” para serem admirados por muitos  brasileiros. Há uns quinze anos atrás ele foi notícia de jornal, envolvido na produção de filmes pornográficos. 

Tenho certeza de que sua incursão pelo filme pornográfico não foi uma escolha tão simples como teria sido a do menino do triciclo, ou do seu compatriota Ang Lee.


JN – 11/03/01



Um comentário:

  1. Caro amigo Nagado,
    O seu texto me levou a uma reflexão retrospectiva sobre um colega de classe de um curso de madureza que frequentei antes de fazer o cursinho e a faculdade onde te conheci. Trata-se de Carlos Reichenbach www.youtube.com/watch?v=10RJuEhl-hY, diretor de cinema, com notável passagem pela "boca do lixo", onde produziu parte importante de sua obra. Assisti o link acima, para rever o colega falecido há algum tempo, sobrevivente de uma arte sub-comercial, desgastado pelo tempo, pela vida e pela saúde precária. Assista pelo menos o começo pois a entrevista é longa. Ele era uma figura ímpar. Perto dele, eu me sinto um almofadinha que viveu uma confortável carreira relativamente pouco acidentada. Provavelmente, o seu colega conheceu e viveu como o meu colega Carlão. Nesta longa vida, sobrevivi a muitas provas, alumas agitadas, outras tediosas. Esta entrevista me leva a eterna impressão de que o brinquedo dos outros é mais legal do que do meu! Pelo menos o do Carlão era. Abraços do Motta

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