sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

CRONICA – Haicais (JOSE NAGADO – 21/06/01)


CRÔNICA – Haicais (jn 21.06.2001)

“Haicais e o Burlesco” (link:  http://licburlesco.blogspot.com/2012/07/haicais-e-o-burlesco-introducao.html), postado no blog Confrarias do Riso, em 19.07.2012, evidenciou um público interessado no haicai e um estímulo para publicarmos a coletânea “Quadros & Haicais".

Esta crônica, "Haicais", inédita (retardatária) no blog Confrarias do Riso, revela a aproximação entre os meus quadros pintados no início dos anos 2000 e o haicai que conheci nos trabalhos do Millôr Fernandes, na revista O Cruzeiro, na década de 1950.

CRÔNICA - HAICAIS
http://licburlesco.blogspot.com/2017/02/cronica-haicais-jose-nagado-210601.html
Gostava muito dos Hai-Kais que o Millor Fernandes publicava na extinta revista semanal “O CRUZEIRO”, nos idos de 1957.  De estrutura simples e curta, seus temas eram um registro imagístico de cenas ou coisas (palavras, idéias, objetos vivos e inanimados, enfim qualquer coisa) explorados sempre de forma criativa, acompanhados de ilustrações ligeiras associadas diretamente ao tema.

No início do ano passado (2000) tomei algumas fotos e quadros produzidos por mim, para servirem de temas para os meus primeiros exercícios de composição de Haicais. Queria aprender a fazer Haicais. Sem métrica ou rima, essas composições tinham apenas os três versos dos Haicais que acostumara a ver naquela revista.

A igreja de uma pequena cidade do interior foi o tema de um desses primeiros Haicais:

A IGREJA DOS HOMENS
APONTA PARA O CÉU
A CRUZ DA SUA FÉ.

No segundo semestre do ano passado (2000), numa dessas modernas lojas de Conveniência agregadas a postos de gasolina, encontrei um livro de bolso, cujo título logo me chamou a atenção. Adivinhou: HAI-KAIS. O autor? O próprio. Millôr Fernandes. (Coleção L&PM Pocket volume 27 – 1999). Foi nesse livro de bolso que vi, pela primeira vez, informações e prescrições básicas do Haicai, que achei interessante inserir nesta crônica.

Na “pequena introdução para os não iniciados” em Hai-Kus ou Hokkus, para os japoneses ou Hai-Kai, escrito com K, grafia preferida e utilizada por Millor, rapidamente ficamos conhecendo as principais características dessa forma de poesia simbolista originária no Japão, da época da sua popularização (século XVII), seus temas e composição. “O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco e um – o segundo – de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescentada nas traduções ocidentais”. (sic)

Nessa introdução, Millôr apresenta, como exemplo, a tradução de um Haicai do século XVII (possivelmente):

EM CIMA DA NEVE
O CORVO ESTA MANHÃ
POUSOU BEM DE LEVE.

Pesquisando no “Aurélio” encontrei as grafias “haicai” e “haicu” e as correspondentes grafias com K., não registrando “hokku”. Curiosidade apenas. “É o haicai japonês, pequeno poema de três versos, de cinco, sete e cinco pés métricos, respectivamente, que resumem uma impressão, um conceito, um drama, um poema, às vezes deliciosamente, não raro profundamente”. (sic)

Millôr diz, ainda, que o seu interesse pelo Kai-Kai, “como forma de expressão direta e econômica” começou em 1957 quando escrevia uma seção de humor (Pif-Paf) na revista O Cruzeiro. Seus Hai-Kais conservam os três versos da forma original, não havendo a preocupação com o número de sílabas.

Um Haicai (acho que vi também na extinta revista “O CRUZEIRO”) mostra essa forma nas composições do Millôr em seu livro:

DIZ PENSAR LIVRE PENSAR.
LIVRE PENSAR
É SÓ PENSAR.

Após conhecer a forma dos Hai-Kais do Millôr resolvi pesquisar uma forma definida para os meus versos.    Nessa pesquisa, descobri que o Haicai pode ser definido como um terceto de uma estrofe heterométrica com versos de cinco, sete e cinco pés métricos (sílabas). Quanto à rima, parece ser mais agradável a rima cruzada (no caso, entre o primeiro e o terceiro verso), também observada nos Hai-Kais do Millôr e nas traduções de Haicais de origem japonesa. A questão do ritmo é muito complicada, parecendo que a liberdade de um ritmo variável é a melhor escolha. Em alguns Haicais o ritmo lógico (definido pela pontuação) é a melhor solução. Em outros, o ritmo melódico (determinado pelas pausas ocorridas após as sílabas tônicas) torna um Haicai mais agradável aos ouvidos.

Quando comecei a escrever meus Haicais e a divulgá-los entre amigos e parentes, descobri que as pessoas necessitavam de uma aproximação maior ao tema apresentado por um determinado Haicai. Parece que ilustrar o Haicai como faz o Millôr, é a forma ideal de fazer a aproximação necessária do leitor ao tema, já que não poderemos estar junto ao leitor para fazê-lo pessoalmente.

Um Haicai de minha autoria, sugere essa aproximação através de uma lápide no cemitério, com a gravação de um ponto (ponto final) dentro de um círculo. O Haicai:

EXISTENCIAL,
PURA FRASE LAPIDAR:
UM PONTO FINAL.                                    .

Até recentemente, achava que eu (e o Millôr) era a única pessoa a se interessar por Haicais. Não conhecia nenhum apreciador desse tipo de poesia. Após algum tempo, descobri amigos que gostaram dos meus Haicais e pessoas que conhecem grupos de criadores de Haicais, principalmente gente mais velha da colônia japonesa.

Encerrando esta crônica, que mais parece uma introdução conceitual ao Haicai (que assim seja, então), deixo registrado a seguir, mais um dos meus primeiros cento e cinqüenta Haicais, sintetizando sua forma.

(Haicai)

POEMETO LEVE,
MERGULHA FUNDO NO TEMA,
E RETORNA BREVE.

JOSE NAGADO – 21/06/01


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